sexta-feira, 19 de abril de 2013

Obrigado, Roberval


Toca o telefone.

- Filho, sabe quem eu encontrei na rua?
- Não.
- Roberval.
- Quem é Roberval, mãe?
- Aquele teu amigo que fez natação contigo.
- Putz, mãe, não lembro.
- Como não? Aquele que era teu amigão. Vocês viviam juntos. Um loirinho, que a irmã fazia balé.
- Ahh... Sei. Legal.
- Ele vai ser pai.
- Legal...
- De novo. É o segundo já. Teve uma menina; agora, parece que é um menino. Vai ficar com um casalzinho.
- Legal...
- E você?
- Eu? To bem...
- Não tem nenhuma novidade pra me contar, não?
- O chuveiro queimou. Tem que trocar a resistência. Sabe se o pai entende disso?
- Você sabe que eu quero ser avó, não sabe?
- Também quero tanta coisa, mãe. Mas a senhora me ensinou que a gente não pode ter tudo nessa vida.
- Lá vem você com esse papo. Olha, eu quero um neto.
- Você já tem dois.
- Aqueles são da tua irmã, quero um da tua parte.
- Aí, já é mais difícil.
- Por quê?
- Primeiro, porque eu não quero.
- Que não quer o quê?! Não sabe o que está falando. Tua mulher vai te dar um pé na bunda.
- Ela também não quer.
- Hahaha... Tá bom... Isso é o que ela diz. TODA mulher quer ser mãe.
- Mãe, eu não sei nem trocar a resistência de um chuveiro. Como posso criar uma criança?
- Mais um motivo pra ela te largar. Não dá um filho pra ela, não troca a resistência do chuveiro...
- Mãe, tenho que voltar ao trabalho. Se não, além de não ter vontade, vai faltar a grana.
- Mas, primeiro, me responde: quando vou ter um neto?
- Mãe, por favor...
- Ela vai te largar. Escuta o que eu to te dizendo. Ela diz que não quer pra não discordar de você.
- Tá bom. Então, se ela mudar de ideia, a gente tem.
- Sabia que o problema era ela! Você sempre quis ter filho. Desde a época que brincava com o Roberval.
- Nem lembro desse cara, mãe.
- Não muda de assunto.
- Olha, mãe, tão ligando aqui.
- Não acredito que vou morrer sem ter um neto. Sem ver a tua carinha de bebê de novo. Você era tão lindo, meu filho. Aquela bochechinha... Tá aí ainda?
- To.
- Mas, ela vai mudar de ideia, viu?! Tenho certeza. O problema é que ela já tá chegando nos 30, né?!
- Não tem problema. Se for o caso, a gente adota.
- O quê? Adota? Por que isso?
- Por que o quê?
- Por que adotar se vocês podem ter um de vocês?
- Mas, o adotivo também vai ser nosso.
- Mas, meu filho... Você tem que deixar suas raízes.
- Que papo é esse de raízes, agora?
- Pensa que um filho teu vai ser igualzinho a você.
- Baixinho, com asma, rinite e miopia?
- Eu fiz o melhor que pude. Bom, quem sou eu pra ficar me metendo na vida de vocês? Vou deixar que vocês resolvam isso sozinhos. Mas, por favor, eu quero um neto.
- Tá bom, tá anotado aqui o teu pedido.
- Vou colocar na agenda o telefone do Roberval. Fiquei de fazer um casaquinho para o menino dele. Vê se liga pra ele, meu filho. A gente não pode se desfazer das nossas amizades assim.
- Tá bom, mãe, eu ligo.
- Beijo, meu filho.
- Mãe...
- Oi?
- Será que o Roberval sabe trocar resistência de chuveiro?

3 comentários:

Victor Farinelli disse...

Genial! Rindo muito da sin alheia, embora a minha seja igualzinha - só mudam os temas, mas a ladainha é a mesma.

chimapizzaia disse...

Putz, ouvi um papo bem similar a esse aqui, ainda nessa semana... conheço bem esse sentimento...

Mauro Castro disse...

Adota.