sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Pobre Zezé


Em primeiro lugar, preciso dizer que adoro Carnaval. Desde garoto. Sempre me encantaram os sambas, os blocos na rua, a pouca roupa e os quatro dias sem aula, a recolher confetes e serpentinas pelo chão nos bailes matinê.

Mas, não há como fugir, devo confessar que odeio as marchinhas de Carnaval.

Houve um tempo em que eu vibrava, gritando a plenos pulmões “Bicha, bicha”, quando alguém contava a história da cabeleira do Zezé, e fazia coro pedindo sinceridade à Aurora, aquela ingrata.

Mas, de uns tempos pra cá, elas têm me irritado profundamente. São como aquele senhor que repete uma história pela milésima vez, dando sempre a mesma entonação.

É sempre o Zezé, que não sabem se é ou não é, é a menina perdida no deserto do Saara, é a morena que passou perto de mim e que me deixou assim...

Memória afetiva é algo terrível mesmo. Faz com que achemos que uma coisa boa há 40, 50 anos, ainda continue no contexto.

A sequência Me dá um Dinheiro Aí / Mamãe eu Quero / Alalaô /, está para o Carnaval, como Bate o Sino / Noite Feliz / Então, é natal / está para o mês de dezembro.

As machinhas são a Simone do Carnaval!

A culpa, aliás, pode estar aí: no tradicionalismo.

Está na moda ser tradicional. Não há nada mais original do que tentar – ainda que na marra – manter as coisas como sempre foram.

Mesmo o que era ruim, damos um jeito. Pintamos com cores melancólicas que disfarçam qualquer imperfeição e vendemos a história um pouquinho alterada. “Ouvir marchinhas é relembrar a beleza e a inocência dos antigos carnavais”, dizem muitos.

Porque não se renovam, apenas envelhecem, as coisas podem ser chamadas de belas e inocentes? Como um senhor que aprontou todas na juventude e, hoje, se esconde por trás de belos e irretocáveis cabelos brancos.

Pense comigo: em que década, um homem de cabelo comprido era considerado homossexual? 1920, 1930? De lá pra cá, tanta coisa aconteceu: a moda do cabelo curto, do comprido, os carecas passaram a ser charmosos, vieram os Black Powers e houve uma corrida desenfreada pela máquina zero.

Neste início de século, há quem use presilhas, tranças e chuquinhas, e nem por isso leve fama semelhante.

Que inveja teria o tal Zezé...

E o que dizer da preconceituosa “O Teu Cabelo não Nega”?

“Mas, como a cor não pega mulata, mulata eu quero o teu amor”.

Cor não pega, amigão? Por um acaso é doença? Parou no tempo!

São por essas e outras que eu broxo quando começam as sequências de marchinhas. Aproveito para ir ao banheiro, comer alguma coisa e esperar até voltarem a tocar o samba - esse, sim, sempre se renovando, mantendo-se atual, goste você ou não.

Enquanto isso, espero a turma encontrar o saca-rolha, salvar a menina perdida no deserto e terminar o julgamento do Zezé.

Pobre Zezé...

Um comentário:

carolineprado disse...

Está na hora de começarmos a enxergar quais tradições valem a pena mantermos e quais estão ultrapassadas. Isso vale para o carnaval, para a literatura, para a religião... Na literatura: virou clássico, não ouse falar que não gostou; na religião: tá na Bíblia, não diga que está errado. É por isso que existem tantos Silas Malafaias desfilando com suas fantasias de cordeiro a tantos carnavais.