segunda-feira, 27 de maio de 2013

E agora, José?


Quando eu tinha uns 12 ou 13 anos, tinha um amigo inseparável.

Como acontece com praticamente todos os garotos dessa idade.

Pré-adolescência é um tempo em que as meninas colocam certo medo na gente – e quando isso muda? – e acaba sendo melhor se fechar em grupos de iguais para se tornar menos vulnerável.

Gabriel era o nome do meu fiel escudeiro. O cara resolvia equações de segundo grau com uma facilidade monstruosa.

Bháskara na veia!

Fazíamos uma baita dupla. Ele descobrindo o valor de X e eu copiando o resultado. O que se invertia nas aulas de português e nos fazia procurar um terceiro companheiro nas de biologia.

Até que, um belo dia, ele mudou de escola. Diziam que seria melhor para ele, que poderia estudar mais e participaria até das Olimpíadas de Matemática.

À época, na minha inocência pré-adolescente, não conseguia entender como o fim da nossa dupla poderia ser melhor para alguém.

Como uma manhã de segunda-feira chuvosa com um 4x²+3x+2=0 para resolver sozinho poderia ser algo bom, sob qualquer aspecto.

Há pelo menos dez anos não me lembrava dessa história, mas ela veio à tona novamente, neste fim de semana, com o anúncio da saída de Neymar do time da Vila.

Foi como reviver a despedida do meu inseparável amigo do ginásio. A nossa imbatível dupla desfeita.

Naquele tempo, pensava, frustrado, que ninguém mais seria capaz de recitar fórmulas como se fossem música e teria na ponta da língua o valor de qualquer raiz quadrada que atravessasse o meu caminho.

Assim como hoje tenho a certeza de que ninguém mais pegará a bola no meio do campo, deixará meio time para trás para acabar com o jogo.

As equações de Neymar são mais complexas que as que Gabriel resolvia. As do craque sempre exigiram respostas rápidas e uma impressionante capacidade de improviso, como naqueles três gols em que deixou jogadores rubro-negros e colorados a ver navios no gramado da Vila e levou ao chão os queixos de apaixonados por futebol do mundo inteiro.

Gols que, quando lembro, vejo-os em preto e branco, como vi os de Pelé, infelizmente, só em VT.

Hoje, na minha inocência de quem acabou de entrar na casa dos trinta, também me recuso a compreender de que maneira essa separação pode fazer bem a alguém.

Nunca fui apresentado ao Neymar. No máximo, o vi da arquibancada. Ele não sabe da existência da nossa dupla.

Não sabe que eu torço cada vez que ele pega na bola com a mesma euforia e perplexidade com que vibrava cada vez que Gabriel pegava o lápis e ensaiava aplicar a infalível fórmula naquele abominável X ao quadrado.

Não entendo os santistas que consideram o desfecho da história bom para o Santos.

Nenhum centavo do dinheiro dessa transação vai para o meu bolso, além de não ser garantia nenhuma de que será empregado na montagem de um grande time.

Aquele “Eu vou, mas eu volto”, escrito no vestiário, serve de consolo. O Gabriel eu nunca mais vi. Já o procurei nas redes sociais, mas nada. O Neymar, continuarei acompanhando e torcendo. Torcendo por mais golaços e dribles desconcertantes.

E, principalmente, para que ele volte um dia para resolver umas equações de segundo grau pra gente.

Mas, até lá, teremos de suportar o vazio de não ver mais o craque vestindo o manto sagrado e não mais entortar zagueiros desavisados em nosso santuário particular.

Ao ver o garoto deixando o gramado do Mané Garrincha, ontem, pela última vez com a camisa do Santos, me vieram à cabeça os versos de Drummond. Simples, belos e eficientes, como um bom drible.

“(...)a festa acabou
a luz apagou
o povo sumiu
a noite esfriou

e agora, José? (...)”

Um comentário:

tiagozecolmeia disse...

A euqação que você escreveu aí não tem nenhuma solução no conjunto dos número reais. Será que tb não existe solução pro futebol no nosso atual mundo real?