sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Desce?

Mal entrei no elevador e o comunicado me chamou a atenção. Era do tamanho de uma folha de papel sulfite e estava ao lado da plaquinha pedindo para eu sorrir, pois estava sendo filmado, e abaixo de uma outra dizendo que, devido à Lei Federal 9294/96, era proibido fumar.
Já vi pedidos absurdos e incompreensíveis naquela parede. O meu preferido era um que alertava para a proibição de se jogar bala chupada no chão do elevador. Bala normal podia. O problema era a bala chupada: já era desaforo.
Mesmo sabendo de todo o potencial daquela parede em ostentar os mais hilários comunicados, me espantei sobremaneira com aquela folha dizendo que – pasmem, senhoras e senhores – era proibido depositar lixo no elevador.
Lixo!
Minha reação imediata foi ironizar, imitando alguns porcos endinheirados, com um: “Como ‘não pode?’ Eu pago uma fortuna de condomínio e não posso nem jogar lixo no elevador?”
Depois, caiu a ficha: isso lá é coisa que se peça?
Então, não seria o caso de avisar também que uma série de outras condutas absurdas são proibidas, como plantar jequitibás ou espalhar explosivos pelo Mesmo – depois, é claro, de verificar se ele, o Mesmo, está no andar?
Pois, infelizmente, concluo que, se pediram, é porque precisa. De certo, nunca ninguém tentou plantar um jequitibá lá dentro. Se tivesse, mais um sulfite decoraria aquelas paredes.
Coincidência ou não, o novo comunicado surge na semana em que o sistema de câmeras andou fora do ar. Período ótimo, aliás, já que não precisávamos mais sorrir, pois não estávamos sendo filmados, mas que nos expôs a esses pequenos crimes condominiais, e também a uma verdade irrefutável e desalentadora: assim como as tartaruguinhas do Projeto Tamar e os presidiários em liberdade condicional, precisamos ser monitorados. Por motivos distintos, mas todos necessitamos de vigilância constante. E não contra os terríveis invasores, mas contra nós mesmos.
Contra o seu Alberto, do 23, por exemplo – principal suspeito de transformar o elevador em lixeira, segundo a loira do 78.  Desconfio que ele até compre sacos diferentes dos que sempre usa, para que ninguém perceba nada. Até consigo vê-lo de madrugada, pijama e toquinha, chamando o elevador e colocando dois sacos lá dentro. Para a transgressão ser completa, penso que ele também acenda um cigarro para desbancar a Lei Federal 9294/96 e, de quebra, jogue no chão um halls chupado, antes de mandar o Mesmo para o subsolo. Tudo com uma tremenda cara feia.
O impacto do comunicado ainda é forte. Trauma recente. Estou tentando me acostumar. Farei o possível para não me espantar quando, em breve, entrar no pequeno quadrado e trombar com uma plaquinha de “É proibido urinar e defecar no elevador”.
Pelo andar da carruagem, não deve faltar muito para isso acontecer. Ate lá, sigo sorrindo, pois as câmeras já voltaram a funcionar e estou, novamente, sendo filmado. Eu, a loira do 78, o seu Alberto e seus sacos de lixo.

Um comentário:

tiagozecolmeia disse...

Uma amiga me contou ter achado absurdo um outdoor em (se não me engano) Hortolândia, com a mensagem "não matarás". Se há necessidade de deixar avisos para "combinados" tão óbvios quanto o dos 10 mandamentos, sabendo que o Brasil é um país cristão, quem dirá de uma bala chupada, uma infração tão leve assim? O que me parece paradoxal é essa necessidade de sermos monitorados para viver coletivamente. É uma demissão intelectual sem tamanho.