sexta-feira, 15 de junho de 2012

Crônica universitária


Encostou no balcão, mas não falou nada.

Aproximou o polegar do indicador, mostrando o tamanho da dose, e foi rapidamente entendido.

Em alguns segundos, o garçom apareceu com uma garrafa.

Ele reagiu:

- Nem vem com isso... Esse negócio de pinga universitária não é comigo, não.

- Pinga universitária, seu Juca?

- É essa coisa docinha que vocês começaram a fazer agora. Parece até que já vem com mel e limão pra descer mais facinho.

E, de repente, mesmo sem saber, meu filósofo de boteco preferido jogou uma luz de sabedoria sobre o balcão daquele bar.

Universitário!

Porque as coisas vêm se chamando assim de uns tempos pra cá, eu não sei; mas sabemos muito bem o que significa.

Tudo que ganha uma versão docinha, que desce macio pode ser chamado de universitário.
                                  
Quando eu era criança, a gente chamava essas coisas de café-com-leite.

Arrastei meu copo para perto do Juca e pedi que falasse mais sobre o assunto.

- Veja você, rapaz, pinga sempre foi coisa de bêbado, de pudim de cachaça. Agora, tem umas mais docinhas que batida. De pinga, só o nome.

        - Interessante.

- E o que fizeram com a música sertaneja? A coisa começou lá com a música caipira, que essa molecada aí acha que é brega, que dá sono. Se esse pessoal escutar Tonico e Tinoco, vai gargalhar, debochar. Mas, aí, colocaram um sonzinho mais moderno, letra fácil, guitarrinha, calça apertada, e passaram a tocar em festa e rodeio.

Fiquei pensativo. Ele tinha razão. Arrisquei:

- Seguindo sua lógica, posso dizer que a comédia standup é uma espécie de teatro universitário?

- Como assim?

- É uma versão docinha do teatro de verdade. Ninguém tem saco mais pra ver Shakespeare, Moliére ou Nelson Rodrigues. Dizem que é pesado, complicado, demorado, tem que ficar pensando. Então, criaram um jeito de continuar indo ao teatro só que pra ver uma coisa rapidinha, que não precisa pensar muito. Vão ao teatro, porque é chique, mas deixaram de lado a parte chata, que são as peças.

Juca terminou o gole, passou a língua nos lábios e balançou a cabeça pra cima e pra baixo, aprovando a teoria.

Outro cara empurrou seu copo para perto e entrou na conversa.

- E esse açaí que vocês comem aqui, em São Paulo? Coisa mais estranha. Lá no Pará que é açaí de verdade, com a fruta mesmo. Onde é que já se viu açaí doce? Isso que se come aqui é sorvetinho.

- É o açaí universitário! – cravou Juca, sem disfarçar a empolgação.

- Isso mesmo. Pegaram a parte boa, que é dizer que é da Amazônia, e deixaram tudo bem docinho, que é pra vocês aqui conseguirem comer.

Ficamos tão encantados com a nossa filosofia de botequim, que experimentamos o silêncio por alguns minutos.

Renovamos a dose e aproveitei para pensar em outras coisas que poderiam ganhar uma versão docinha.

Que tal o baile funk universitário?

Todo aquele climão, mas tudo café-com-leite. Músicas sem palavrão, sonorização de tiroteio a cada 15 minutos e de sirene a cada duas horas, e encenação com atores fortemente armados cruzando o salão a cada 45 minutos.

Tudo na maior segurança. Uma vez por mês, poderiam organizar até uma briga de gangues pra coisa ficar bem real.

Sei que nem todos os bailes funk são assim, mas é assim que as pessoas imaginam e uma das características das versões café-com-leite é abusar dos clichês que já caíram no gosto do grande público.

Posso ver até seu Juca explicando: “Pegam a fama exótica da coisa e jogam fora sua essência. Pasteurizam a ponto de ficar igual a tudo que já foi consumido antes. Tudo pra não correr risco de rejeição”, diria ele, com seu português exemplar.

Outra coisa ‘feia’, mas que poderia se transformar em ‘bonitinha’ para ganhar os corações e o bolso da molecada cheia da grana é a rinha de galo.

Galos de pelúcia comandados por controle remoto (pra ninguém ver sangue e correr o risco de passar mal), bolsa de apostas virtuais acessadas de celulares ultramodernos, e até algumas encenações da chegada da polícia para elevar o nível de adrenalina da rapaziada.

No final, ao som de um sertanejo universitário qualquer, o vencedor poderia até dar um trago na pinga universitária do Juca.

Sem esquecer, é claro, de tomar um açaí universitário antes de cair no sono em sua cama quentinha.

Ao olhar para o balcão, percebo que Juca se foi. Sua passagem pelo bar é cada vez mais rápida.

Dou uma olhada geral.

Um autêntico risca-faca, mas com mesas cheias de menininhas arrumadinhas, pingas universitárias nas mesas e, na TV, uma luta-livre cheia de glamour.

Logo logo, colocam segurança na porta e cobram consumação mínima.

Até o boteco sujo do seu Juca está virando café-com-leite.

Do outro lado do balcão, o dono sorri feliz da vida.

Compreendo o Juca.

Mato a dose e peço a conta.

4 comentários:

Victor Farinelli disse...

Genial!! Isso é quase um manifesto contra a artificialidade que tem tomado conta da cultura brasileira há tempos, e ficou brilhante, porque soou como protesto solitário autêntico - ou seja, não universitário.

Acho que dava prá publicar isso em outros lugares se você tiver interesse.

benitovasques disse...

Caro Maykon,
sua crônica tece com sabedoria e sabor uma questão essencial da contemporaneidade: a absolutização do valor em todos os espaços...putz, já tô com o papo universitário! Foi mal, a tua literatua continua me agradando/incomodando por ter exatamente essa relação direta com o têmpero do real. Quam sabe algum dia desses em algum balcão eu continuo com aquele papo do começo.
Aquele Abraço,
benitovasques.

Paulo Roberto Rodrigues disse...

Parabéns pelo texto. Todas as idéias são apresentadas de forma bem suave, mas de forma que não perde toda força e impacto.
Dei uma olhada em seu blog e gostei. Voltarei outras vezes.

Abs.

Anônimo disse...

Maykon
Sua escrita é ótima, coisa rara hoje em dia,
Parabens !!