sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Hã?!

Achei minha ideia brilhante e quis contar pra ela na mesma hora.

Seria o fim de boa parte de nossos problemas conjugais.

- Amor, tive uma ideia.

- Hã?!

- Tive uma ideia.

- Desculpa, não entendi.

Esse era o problema: não compreendíamos muito bem o que o outro dizia. Qualquer frase dita depois de alguns segundos de silêncio e que nos pegasse meio de susto resultava em terríveis “Hã?!” “O quê?!” “Que foi?”

Mas, minha ideia era muito boa. Muito mesmo. Resolvi continuar. Dessa vez, separando as sílabas.

- Ti-ve uma ide-ia pra vo-cê en-ten-der o que eu di-go.

- Mas, eu entendo. Quem não entende é você.

Imediatamente, mandei um:

- Oi?

Hummm... fechou o tempo. Ela achou que foi de propósito. Pra provocar.

Fez um silêncio profundo. Olhou pra cima, bufou, contou até dez, pensou em falar novamente, tomou o ar e... desistiu.

Por incrível que pareça, depois de toda essa sequência compreendi o que ela disse.

Às vezes, acontece. A ficha cai como que por encanto, diante de tanta ameaça.

- Se eu não entendo é porque você fala baixo – tentei me defender.

Ela concluiu, triunfante:

- Ahhh, então você tinha entendido o que eu falei? Tá vendo como é? Você só ouve o que quer!

Confesso: o “Hã?!” e o “Oi?” são automáticos, quase uma muleta.

Depois de ouvir qualquer coisa, deixo escapar um “que foi?”, “oi?”. Mas, não é por mal. Cheguei, inclusive, a desenvolver algumas técnicas pra corrigir isso.

A mais importante delas: não devolver a pergunta, em hipótese alguma. Se, realmente, não compreendesse, ficava repetindo o som mentalmente.

Se ainda assim não desse certo, tentava aliar o som ao tema da conversa.

Por exemplo, se a frase terminasse em “ela” e estivéssemos na cozinha, eram grandes as chances de a minha missão ser “pegar uma panela”.

Essas tentativas de adivinhar foram engraçadas.

Ela:

- Mudou de canal?

- Que f... – parei a frase pela metade.

Consegui!

É difícil, exige um autocontrole absurdo. Foi o primeiro passo. Um passo de cada vez.

Mas, a pergunta? Qual era? Passei a repetir mentalmente o som que tinha escutado. Terminava em “al”. Al, AL, AL...

Arrisquei:

- Se estou me sentindo mal?

Ela riu. Comecei a dizer em voz alta “AL, AL, AL...”

- Se eu vi o jornal?

Em silêncio, ela fez sinal pra eu continuar tentando. “AL, AL, AL...”

- Cheiro de animal?

Ela olhou o controle remoto de relance. Era a dica. Gritei:

- Canal, canal. Se eu mudei de canal!!! Eu mudei de canal! Mudei, sim!!!

Ela, séria:

- Pois é... e eu tava vendo a novela.

Eu, sem pensar:

- Oi?

E fechava o tempo novamente...

Mas, com a minha ideia tudo mudaria.

Era simples: consistia em esperar uns cinco segundos antes de tentar adivinhar ou perguntar “que foi?”.

Se nesse meio tempo as coisas não ficassem claras, a pessoa que começou o assunto repetiria o que disse, sem a necessidade de alguém parecer um tonto fazendo “Hã?!”

Propus, ela achou interessante e resolvemos tentar.

Uma semana depois, vimos que não tinha como dar certo. Ficávamos cinco, dez, vinte segundos e esquecíamos da pergunta, da ideia e até de quem tinha começado o assunto.

Ainda tentamos exercitar alguns dias, até que pedi para abaixar o volume da TV.

Ela não compreendeu e, conforme tínhamos combinado, ficou em silêncio. Só que esperamos quase um minuto e esqueci de começar o assunto novamente. Em vez disso, soltei um “Que foi?”

Ao que ela respondeu:

“Hã?!”

E a ideia naufragava. Respiramos fundo e deixamos assim, o dito pelo não dito. Ou melhor, o dito pelo não entendido.

7 comentários:

carolineprado disse...

Isso sempre acontece aqui em casa. Duas coisas ajudam: diminuir o volume da TV e fazer lavagem no ouvido. O problema é que o que falta mesmo é atenção. Aí não tem Cristo que dê jeito.

Roberto Feliciano disse...

Hã?

Grilo D disse...

Eu sofro de TDA (Transtorno do Déficit de Atenção) e a minha esposa fala como se tivesse uma toalha na boca. De lá pra cá, pouquíssimas ideias são aproveitadas. Aliás, é difícil até saber quando ela fala comigo...
De cá pra lá, é a lesma lerda. Eu falo seguindo raciocínios lógicos, o que é incompreensível a qualquer símio ou parente. E ela é pisciana, entende qualquer coisa, menos o que eu quis dizer...
Acho que é por isso que estamos casados! Relacionamentos são, em essência, a arte do não-entendimento.
Bão, o homem fala através de uma gambiarra no sistema respiratório, criou uma língua para cada pedaço de terra e muda o sentido das palavras com o tempo ou o humor. Se alguém se entender nessa zona toda, certamente tem algum problema muito sério.
Abraços,
Grilo D

Janaína disse...

Oi? Por isso que eu falo sozinha ou com patos de gelo. Funciona! O problema é quando eles derretem antes de eu terminar o falatório...

Victor Farinelli disse...

No futuro, os padres terão que incluir na tradicional pergunta: "na alegria e na tristeza, na saúde e na doença... no 'claro, meu amor' e no 'hã?'". Em tempo, realmente deliciosa esta amenidade.

Dojival Filho disse...

Belo texto. Aquele timing característico de quem devorou os livros de Sabino, Roberto Drummond e afins. Abraço!

Paulo Roberto Rodrigues disse...

Parabéns. Você escreve muito bem, além disso é muito criativo também. Abs.